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Contra o obscurantismo

Lier Pires Ferreira

Professor do Ibmec/RJ e do CP2

Em maio de 1933, sob a liderança de Joseph Goebblels, os nazistas promoveram um dos mais emblemáticos atos de obscurantismo da contemporaneidade. Em toda a Alemanha, montanhas de livros foram queimados em praças públicas em nome de uma pretensa “purificação literária” contra tudo o que pudesse “alienar a cultura alemã”. Embora a Alemanha seja a pátria de alguns dos maiores pensadores da história, como Kant, Hegel, Marx e Weber, poucos se levantaram contra essa barbárie. No vão entre a covardia e a cooptação, os alemães silenciaram-se, acompanhados por grande parte da comunidade internacional.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro anunciou há alguns dias que “estuda descentralizar investimentos em faculdades de Filosofia e Sociologia (humanas)”. Pelo Twitter, avisou que o objetivo é focar em áreas que possam dar retorno imediato ao contribuinte, como veterinária, engenharia e medicina. O que ampara uma postura tão limitada?

É cediço que Bolsonaro não tem apreço pela cultura e pelo conhecimento. Embora de formação militar, o presidente encontra-se culturalmente muito aquém dos seus pares, que costumam valorizar as artes e as ciências. Portanto, além de evidenciar um lamentável gap cultural, a fala presidencial, antecipada pelo titular do ministério da Educação, Abraham Weintraub, deixa entrever certo orgulho da própria ignorância e uma indesejável ode à boçalidade, quiçá cultivada por seu guru, o “filósofo” Olavo de Carvalho.

“Olavistas de scol”, Bolsonaro e Weintraub ensaiaram a cantilena de que as Ciências Humanas são saberes dispensáveis, que não “atendem às demandas da população”, pois não teriam aplicação prática. Como justificativa, o ministro trouxe uma obsoleta orientação do governo japonês, que, em 2015, recomendou o corte de verbas nas Ciências Humanas e Sociais.

No Japão, a medida rendeu fortes críticas ao governo, críticas perpetradas inclusive pelas universidades de Tóquio e Kyoto, as duas maiores do país. Os japoneses reconheceram o valor teórico e prático das Humanidades, não apenas no que concerne ao conhecimento da realidade social, mas, fundamentalmente, no desenvolvimento de habilidades e competências socioemocionais indispensáveis ao mercado de trabalho. Por isso, a lamentável orientação governamental foi abandonada ainda em 2015, quando Hakuban Shimomura, então ministro da Educação, foi afastado por corrupção. A bem da verdade, não existe país desenvolvido sem pesquisa científica efetiva, quer nas ciências duras, quer nas Humanidades.

No Brasil, mais de duas dezenas de entidades já se ergueram contra mais essa tolice governamental, dentre elas a Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS), criada em 2011 no Campus Humaitá do Colégio Pedro II. O mesmo acontece com intelectuais, professores e estudantes de todo o país. Todos apontam o erro do governo em estabelecer clivagens rígidas entre os diferentes campos da ciência, lamentam seu desconhecimento pelo papel crucial da Filosofia para o desenvolvimento do espírito humano e da própria ciência, além de repudiarem seu desprezo pela Sociologia e seu papel essencial na formulação e avaliação de políticas públicas e no desenvolvimento crítico dos cidadãos.

O governo Bolsonaro tem sido pródigo em anunciar medidas polêmicas e depois retroceder, face à saraivada de críticas. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando revogou a portaria que suspendia a avalição da alfabetização infantil. Espera-se, agora, que a reação da sociedade civil e dos congressistas produza o mesmo efeito. Sabemos, contudo, que mesmo que o governo prossiga em seu intuito, a intelligentsia e a civilização não cessarão seus esforços até que o obscurantismo medieval seja extirpado do Brasil.

 

 

 




 







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