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O Rio Secou...

Lier Pires Ferreira

Ibmec/RJ e CP2

Rio, 40 Graus” é uma das obras primas do cinema brasileiro. Dirigido por Nelson Pereira dos Santos, em 1955, o filme conta a história de cinco garotos negros que descem da comunidade onde vivem para vender amendoim pela cidade. Em seu périplo, os jovens vivenciam a realidade contraditória do Rio de Janeiro, perpassando aspectos prosaicos da realidade citadina e muitos dos seus dramas. Quase um documentário da cena carioca, a película rompe com a americanização das chanchadas e retrata uma urbe imperfeita, mas que revela certa inocência e um inabalável otimismo no futuro da cidade e do próprio país. Esse Rio não existe mais.

Hoje jaz uma cidade violenta, fragmentada, que pouco ou nada lembra a leveza de suas belas paisagens. O povo perdeu a alegria. Mas nada retrata melhor sua falência do que dois eventos recentes: a apreensão de livros durante a bienal e a morte da menina Ágatha, no Alemão.

No último dia 05/09, o prefeito Marcelo Crivella ordenou o recolhimento de livros com a temática LGBTI+ durante a Bienal do Livro. Bispo neopentecostal, Crivella vem tendo sua gestão marcada por escândalos políticos, desmandos na saúde e uma estúpida confrontação com a comunidade carnavalesca. Mas a violência da ordem de apreensão dos livros na Bienal é um claro sinal de obscurantismo fundamentalista que revela o fosso sociocultural no qual se encontra a "cidade maravilhosa".

Uma censura inquisitorial, que fulmina o status de “capital cultural do Brasil” e relembra episódios tão toscos quanto lamentáveis, como a censura sofrida por “Rio, 40 Graus” sob o argumento cínico de que a temperatura na cidade nunca ultrapassa 39,6º.

Mas nada se compara com a morte da menina Ágatha, de 08 anos, em 20/09, no contexto da necropolítica de segurança implantada pelo governador Wilson Witzel. Ex-magistrado, mestre em Ciência Política, Witzel teve uma das mais impressionantes vitórias eleitorais da história republicana, saindo de míseros 1% no início do último pleito diretamente para o Palácio Guanabara. Eleito no rastro do bolsonarismo que dominou a cidade e o estado que a abriga, Witzel implantou uma política de segurança pública que tem sido responsável pela morte de jovens, negros e pobres, que pouco ou nada se diferenciam daqueles retratados por Nelson Pereira dos Santos. Uma política de morte, que vitima diariamente bandidos e policiais, abatendo, também, civis inocentes, todos igualmente negros e pobres, como a menina Ágatha, alvejada nas costas quando policiais dispararam contra uma moto “suspeita”. Em que pesem alguns êxitos, a política de segurança de Witzel tem sido uma política desumanizadora, virulenta, que sepulta crianças e jovens marginalizados pela sua condição étnica e socioeconômica.

Como chegamos a esse estágio?  A falência do Rio não é súbita. Ela se deve em grande parte ao esvaziamento político, econômico e cultural das últimas décadas, sendo turbinada por políticos que oscilam do populismo raso à corrupção compulsiva, passando pela completa incompetência e pelo total desapreço à coisa pública. Os números da economia da cidade e do estado, bem como o fato de que algumas de suas mais importantes lideranças políticas estão encarceradas, seriam suficientes para evidenciar sua morbidez. Mas as políticas perpetradas por Crivella e Witzel não seriam possíveis sem a resignada conivência da sociedade civil. Convencidos de que o Estado e a política são venais, a sociedade civil, empobrecida e brutalizada, cede aos encantos das soluções simplistas e abraça de bom grado o salvacionismo neopetencostal, o moralismo oco e a criminalização da pobreza. Aplaude, enfim, uma política necropsial, racista, que criminaliza a pobreza e suas manifestações, matando em nome da paz. O Rio secou...




 







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