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Resistências negras em tempos de pandemia

28/07/2020

Lier Pires Ferreira
PhD em Direito. Professor Titular do Ibmec e do CP2

Em julho de 2020, os EUA alcançaram 150.000 mortes por Covid-19, mais de 04 milhões de infectados e uma média diária acima de 1.000 óbitos. Mesmo assim, as ações de reabertura econômica avançaram, ampliando a funesta circulação do novo coronavírus. Mas a roleta da morte não gira igualmente para todos. Na América, a pandemia vitima 03 vezes mais negros do que brancos, evidenciando o racismo que dilacera o país. O mais recente símbolo desta distopia é George Floyd, cujo assassinato potencializou o movimento Vidas Negras Importam.

Assim como os EUA, o Brasil tem sofrido com a Covid-19. Com uma média diária também superior a 1.000 óbitos, o país atinge o patamar de 90.000 mortes e 2,5 milhões de infectados. Embora o novo coronavírus alcance todos os segmentos sociais - como aconteceu recentemente com o músico e jornalista Rodrigo Rodrigues, 45, típico representante da classe média tijucana -, é certo que por aqui o vírus da morte igualmente possui suas vítimas preferenciais.

Segundo o IBGE, no Brasil os negros morrem 40% mais por Covid-19 do que os brancos.  Trata-se de uma necropolítica que deixa claro o descaso social pela morte de pessoas negras. É certo que os negacionistas do racismo dirão que não há, nesses dados do IBGE, um corte racial, mas, essencialmente, um traço de classe. Em outras palavras, os negros morreriam mais porque são pobres e não porque são negros. Mas essas vozes raramente buscam compreender as razões históricas pelas quais os negros estão entre os mais pobres da sociedade brasileira.

O caráter estrutural do racismo nega qualquer responsabilidade histórica pela condição social do negro, minimizando os efeitos da escravidão e dificultando as ações reparatórias. Nessa lógica, negacionista, a pobreza seria uma condição natural do negro, resultado de suas incapacidades ínsitas. Esse mantra, há muito repetido, ainda ecoa fortemente na sociedade brasileira; mas a resistência se avoluma.

Assim como os negros estadunidenses, os povos negros do Brasil cada vez mais mostram sua cara. Se as populações negras foram escravizadas, tiveram suas expressões culturais bastardizadas e enfrentaram diferentes estratégias de genocídio, dentre as quais a miscigenação branqueadora e a branquitude social, é certo que essa dominação não se deu sem lutas. Historicamente, é possível identificar que a solidariedade sociofamiliar e a vitalidade cultural, foram, nas senzalas, nos quilombos ou nas periferias, estratégias que permitiram aos negros resistir.

Neste sentido, o quilombismo de Abdias Nascimento ou a quilombagem de Clóvis Moura, ressignificados pelas lutas e expressões culturais contemporâneas, permitem aos povos negros compreender os processos dominativos que os submeteram, bem como formular estratégias de superação. Igualmente, permitem ao negro reconhecer que sua força está na união, na ação coletiva, no movimento orgânico e identitário. É o que se vê hoje, no contexto da Covid-19.

Para não sucumbirem à necropolítica do fasciobolsonarismo, que cloroquiniza o debate público, os povos negros resgatam a solidariedade vital, ancestral, que lhes valeram nas senzalas e quilombos. Entregadores antifascistas, artistas, empreendedores sociais, lideranças comunitárias, ativistas e outros permitem antever uma geopolítica das quebradas e problematizar as senzalerias nas quais os negros estão predominantemente inseridos. Contudo, empoderados pela própria luta, os povos negros já vêm sua negritude como potência. Afinal, se o racismo não dá tréguas, seu combate é vital para a construção próxima-futura do Brasil pós-pandemia. Mais do que uma luta dos povos negros, o combate ao racismo é uma luta emergencial de todos os brasileiros.




 







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