Fábio Facchinetti Freire
Coronel da Reserva do Exército. Doutor em Ciências Sociais pela PUC-Rio
fabiofreire1965@gmail.com
Em meados da década de 1990, o Exército iniciou o Processo de Modernização do Ensino (PME). Embalado nos ventos internos da redemocratização e externos da doutrina americana em mudança, a Força Terrestre produzir, com a colaboração da UNICAMP, a mais consistente autocrítica de seu processo educacional que nós, oficiais iniciando como especialistas na área, tivéramos conhecimento.
E tão certeira nos fundamentos, contundente na análise e franca nas proposições, que esperávamos grande resistência a sua implantação. Resistência velada e que tinha a ver com a própria cultura organizacional acusada em boa parte da crítica. Porque, em uma instituição fortemente hierarquizada, na qual a hierarquia é a espinha dorsal que organiza e dá sentido à comunidade profissional,
as ordens e missões sempre são cumpridas. O que não quer dizer que os objetivos venham a ser atingidos. Explico e exemplifico. Uma boa reforma educacional não se prende ao que é ensinado. Muitas vezes, essa é a parte fácil da crítica, tão midiática e espetaculosa quanto é superficial e efêmera. As melhores perguntas têm a ver com a maneira como se ensina e a maneira como se avalia. É aí que o atraso a ser superado se esconde e se defende. Como ser autoritário para implantar a democracia. É aí que a forma trai o conteúdo.
Mas faltou o exemplo. Boa parte das críticas levantadas pelo PME confrontavam o Tecnicismo, como corrente pedagógica hegemônica no Exército, pelo menos desde duas décadas antes. O Tecnicismo é o paraíso da burocracia, com seus modelos de provas, formulários de avaliação e aulas formatadas. No Tecnicismo, o “padrão” é um fim em si próprio, e o PME chegou advogando a criatividade, a autonomia, a decisão na incerteza... valores para a realidade bélica no século XXI. Faz parte da “musculatura” do Tecnicismo uma imensa quantidade de normas e manuais. Nada fica a descoberto e sempre é possível refugiar-se no “onde está escrito?” ou no “como isso foi feito no ano passado?”
Esse foi um alvo do PME: reduzir a papelada e investir na formação pedagógica dos agentes de ensino, para que estes pudessem resolver, decidir e criar na contingência veloz em que os problemas se apresentassem. Porém, a quantidade de especialistas não cresceu dentro do Exército. Após um “boom” inicial, os efetivos acomodaram-se e – pior! – se burocratizaram, com uma possível ascendência hierárquica do conhecimento sendo subsumida pela hierarquia formal tradicional.
As ações inovadoras do PME, verticalizadas de cima para baixo (em novos padrões!) em boa parte realizaram-se em consequências superficiais que, justamente por não germinarem dentro dos sujeitos envolvidos, retrocederam ao status quo enraizado, seguindo um tipo de “inércia cultural”. Não se pode padronizar a criatividade, nem “comandar” a iniciativa.
Ambas – a criatividade e a iniciativa – assim como a motivação, são portas que só se abrem pelo lado de dentro. Os ventos não pararam de soprar. Hoje, entretanto, embalam tradicionalismos em novo vernáculo (“habilidades e competências” etc.), como se alguma prova do tempo os tivesse validado. A crítica do PME continua apontando o paraíso (Atlântida? Passárgada?) a ser descoberto.
Acredito que recuperar a história do PME, não só pela franqueza do retrato sobre a educação militar, mas pelo mérito de empunhar a boa crítica na direção da Força Terrestre, é o melhor ponto de partida para uma (nova) modernização do ensino: ampla, fundamentada e comprometida com a democracia.